Mostrando postagens com marcador Neto Muniz. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Neto Muniz. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

DAS COISAS BOAS DA VIDA

Praia noturna
vento em demasia
lembranças que se repetem
partida sortuda
ecos de alegria
amigos que se reconhecem.
Dinheiro achado
desconto bem dado
bilhete sorteado.
Uma bela canção
um gosto que não passa
um livro que não cala
comer com a mão
cafezinho de graça
um filme que abala...
‘Música de Tom com letra de Chico’.
Ficar sozinho por vontade
achar graça da própria ansiedade
uma verdadeira amizade.
Uma tarde sem sol
uma sombra sem calor
luar branco e encantado
praia no fim da tarde
tranquilidade de casa
sorrisos [e] doces...
cerveja gelada
café quente
uva, maçã, fruta do conde
poesia falada
poesia que se sente
poesia de Drummond...
amor no escuro
amor bem amado
amor sem pudor
amar sem apuro
amar amorado
amar por amor!

Neto Muniz
Cruz - CE
19.set.2013

domingo, 8 de junho de 2014

Meu corpo me pertence

Um escarro, um beijo, um arroto.
Catarro, cheiro de peido, peixe morto.
Casca de ferida, sangue, um corte na língua.
Uma mosca sem vida, pus e uma íngua.

Meu sangue foi batido no liquidificador:
cago angústia, espirro melancolia, escarro dor,
Meus sentimentos são minhas excreções:
transpiro amores, durmo agonias, suo paixões.

Purulento, desce melífluo meu catarro.
Sua queda insiste em não cair.
Tem um tom amarelento meu escarro.

Sentimentos que cheiram à morte não me mentem.
Amo meus dejetos. Vivo pra expeli-los.
Minhas excreções são o que mais me pertencem.

20.jul.2009
Neto Muniz
Cruz - CE

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Um Bairro Chamado Brasil

Quero aqui falar de alguns personagens que habitam e constituem meu bairro. Moro em um local periférico, um pouco afastado do centro da cidade, o que não nos impede da convivência charmosa e harmoniosa de pessoas da mais alta singularidade. Destacarei alguns desses seres ímpares.

O primeiro deles, Seu Saúde, é um simpático senhor que durante toda sua vida esforçou-se ao máximo para que seus feitos chegassem ao conhecimento e ao usufruto de todos. Gosta ele de ser chamado por seu pomposo nome acrescido de seu sobrenome: Seu Saúde Pública.

Esqueci de mencionar o mais importante: Seu Saúde é músico, um verdadeiro artista! Durante todo seu pernoitar neste mundo tentou, quase sempre em vão, que suas partituras, suas letras, seus arranjos e suas melodias fossem do conhecimento do grande público. Hoje, com sua saúde já debilitada, torce para que seus versos sejam mais lidos, mais compreendidos e mais executados também.

Apesar de ter sido assessorado por grandes intelectuais, ilustres nomes do pensar, Seu Saúde nunca passou de um augusto desconhecido das grandes massas. Aliás, seu nome até ecoa dos barracos favelizados às mansões imperiais. Porém é apenas seu nome, e não a pessoa Saúde Pública e suas benesses artístico-culturais que faz voz nas pessoas.

Não são suas melodias faustosas e seus promissores efeitos que o público conhece, é apenas seu nome, como uma promessa de uma utopia ainda distante.

Não obstante sua simpatia e mesmo sua tímida aproximação com seu público em potencial, Seu Saúde não conseguiu conquistar o grande amor da sua vida: uma senhora às vezes rabugenta demais, às vezes sensível demais. Mas o que mais a identifica é seu estranho e desdenhoso hábito de fazer promessas as quais não consegue cumprir. Atende pelo promíscuo nome de Constituição Cidadã.

Ao falarmos da vida desta quase caducante senhora que por toda sua vida passou por incontáveis quedas e posteriores modificações – algumas radicais outras nem tanto – até apodar-se de Constituição Cidadã, logo nos fazemos lembrar os políticos de nosso país: tudo nos prometem, tudo nos garantem e nunca nos dizem um "não". Apesar desta comparação, sei que D. Constituição vive repetindo pelo bairro que não gosta de política, dizendo-se apartidária e neutra.

Porém um algo a mais tem em seus dizeres que a difere de um mero discurso panfletário. Sua voz serena mas firme parece-nos ter a força de leis escritas. Se é ela quem fala, logo nos tranquilizamos. Um dos argumentos mais convincentes do bairro, quase um chavão, usado nas mesas de bar ou mesmo nas brigas entre vizinhos por um pedaço a mais de varal é: "Foi D. Constituição que garantiu".

Agora vou apresentar outro cidadão que também é um ícone do bairro onde moro. É daqueles sujeitos que se conhece e nunca se esquece. Ou se gosta muito dele ou o deixamos a falar a sós, com suas promessas mirabolantes e pouco modestas. Ele é um dos cidadãos mais fanfarrões que se tem notícia. Com um discurso recheado de palavras bonitas - a maioria retóricas e prolixas – apresenta-se aos outros quase como uma panaceia dos problemas alheios. Diz ser capaz de resolver todos os dilemas dos outros. Mais: se diz o caminho para a autonomia dos processos subjetivos. Seu nome, Educação Brasileira.

Seu Educação muitas vezes é tomado no bairro como uma pessoa arrogante. Sobretudo porque, ao aqui chegar, também prometera, assim como D. Constituição, coisas que não pôde cumprir. A diferença é que fizera juras de mudanças a longo prazo, pediu tempo, o que lhe foi dado, mas não deu o devido retorno à comunidade, já que prometeu liberdade e auto-suficiência ao fim de um processo. Tal processo, como já foi dito, mostrou-se falho.

Já falei de sua coincidência com D. Constituição. Agora vou lhes dizer de sua semelhança com Seu Saúde. Os dois amam e nunca conquistaram a mesma mulher. Isso mesmo, D. Constituição é também dona do coração de Seu Educação.

Seria uma grande falha minha se não vos dissesse que esta senhora que a tudo promete é casada com Seu Brasil Lesado Pelos Outros.

Dado a imponência e a variedade de seus sobrenomes, Seu Brasil sabe que é a figura de maior poder aquisitivo do bairro. O que não sabe é que sua fortuna poderia multiplicar-se por infinitas vezes se se desse conta de sua riqueza em potencial.

Seu Brasil teve muitos filhos em sua espessa, lânguida e, por assim dizer, fértil vida. Em sua imensa maioria canalhas, calhordas e cafajestes. Isso só pra não sair da letra 'c'.

Cabe dizer que, apesar de seu casamento longínquo e duradouro com D. Constituição, muitos de seus filhos são frutos de outras "transações" maliciosas, resultados de sua solteirice. Lascívias voláteis. O que não posso negar é sua rara habilidade em dar nomes criativos para seus muitos filhos. Alguns nomes: "Dívida Externa", "Subdesenvolvimento", "Censura", "Povo Sem Educação", "Povo Sem Saúde", "País do Futebol", "País do Futuro", "Seu Zé", "D. Maria"...

Ao longo de sua vida Seu Brasil teve um sem número de empregados que lhe passaram a perna. Apesar de seu filho "Jeitinho Brasileiro" tentar ajudar-lhe, o marido de D. Constituição sempre teve suas receitas – como diria um filho do casal, Chico Buarque de Hollanda –, "subtraídas em tenebrosas transações".

Em sua vida já vendeu de tudo para sobreviver: madeira, açúcar, escravos, ouro, café. Hoje se vende em cada esquina, a cada passo inseguro e vacilante. Vende-se a preços tabelados. Porém orgulha-se de vender a si mesmo e aos filhos ao sabor do preço do petróleo. Além do mais, vende-se em dólar. Orgulha-se também de ter amigos no exterior que lhe emprestam, sempre que precisa, dinheiro a juros irreais e desumanos.

D. Constituição tem-lhe um grande carinho e, apesar das tantas quebras e rinhas, acha-se muito feliz em seu matrimônio. O que mais admira em seu marido são os filhos dele e a capacidade que estes têm, contra todas as expectativas, de amá-lo. Porém, reza que preferiria que a riqueza de Seu Brasil fosse melhor repartida entre seus descendentes.

Seu enlace amoroso deu-se nos primeiros anos da década de 1820. Em 1824 deu-se o casório, com toda pompa e circunstância, tal como num matrimônio imperial. Apesar do posterior rompimento dos dois com a Igreja Católica foi esta quem abençoou, em nome de um Deus onipotente e onipresente, a união do nascente casal.

Seu Brasil nunca traiu o matrimônio, apesar de quase nunca conseguir cumprir o que prometera a D. Constituição. Esta, se não teve amantes fixos, teve pelo menos duas puladas de cerca.

A primeira delas foi com Seu Educação, na qual firmaram um tênue relacionamento que prometia ser benéfico para todo o bairro. Como se sabe, tal relacionamento não deixou outro fruto a não ser a desmoralização e o descrédito de Seu Brasil perante sua comunidade.

A segunda vez foi com Seu Saúde Pública, na qual viveram um intenso, porém finito grande amor. Quiseram eles unirem-se mas D. Constituição o achava muito longe do povo, destoando daquelas lindas palavras que ele lhe falava ao ouvido.

D. Constituição até que gostou dos dois, mas sabia que não podia se desvincular de seus laços afetivos e constitutivos de seu esposo. Preferiu, então, mais uma vez, jogar toda a carga daquilo que não conseguia resolver pra cima de outrem, que também, sabia ela, fugia-lhe à alçada de resolução.

Sobre o espinhaço dilacerado de mágoas e descaminhos de Seu Brasil, D. Constituição jogou-lhe as cargas de algo que ela só pode garantir através de palavras: que o ideário utópico de Seu Saúde Pública chegue, de fato, às camadas mais populares e que Seu Educação Brasileira consiga transformar em eventos práticos e teorias prenhes suas falas retóricas e, por vezes, ingenuamente ufânicas.

Fez, pois, o que sempre fizera: prometera; aliás, garantira! Sob as costas magras, ossudas e velhacas de quem lhe desposara; sob um discurso pós-moderno de um Estado neo-liberal transformou seu marido em um paternalista já fora de moda (que ainda reclama um absolutismo setecentista), esquecendo-se dos modelos em voga, contradizendo-se e vitimando-se a si mesma, fadando Seu Brasil ao insucesso, quiçá ao aniquilamento.

20.jun.2009

quinta-feira, 27 de março de 2014

Talvez

Em algum lugar do globo um garotinho de onze anos ouve Nirvana trancado num quarto sombrio. Sua mãe vê-lhe um futuro macabro: imagina-o dali a dois anos com uma ampola na mão à beira de uma overdose lisérgica.

Alguns bairros após, indo em sentido sul, um casal torce o nariz perante a cor do médico que atende ao filho de ambos. Creditam seu diploma à determinada política de cotas universitárias implantada por determinada Estado jurídico de algum país. No mesmo hospital, um quarto e um corredor depois, um triste palhaço tenta, em vão, alegrar uma garotinha soropositiva.

Partindo de onde estamos, treze países a noroeste, uma linda menina loira, de olhos cuja cor se define pela intensidade da luz do sol, dá pipoca aos gorilas no zoológico. Lá fora, um ruivo menino pede esmola para comprar o almoço de ontem.

Longe dali, talvez bem perto de onde esteja eu, um marido espanca sua esposa na frente dos filhos por ela ter gasto o dinheiro de um incentivo do governo comprando material escolar para as crianças. Ele queria comprar cachaça!

Nas proximidades de um aeroporto famoso em todo o mundo, uma menina de doze anos (com corpo ainda de oito) felicita-se por ter tido sua menarca – fora a primeira de sua turma. Na mesma casa, no próximo quarto a leste, sua irmã está desesperada porque a sua ainda não veio... está nua no quarto, em pé, com as mãos cobrindo o rosto, deixando à mostra todo o seu corpo. Pela janelinha do banheiro, também já quase nu, seu padrasto observa tudo.

Alguns graus de latitude norte a menos, um adolescente entra na farmácia mais próxima para comprar cigarros. A moça o atende muito bem e eles trocam telefones. Em sentido oeste, na próxima universidade pública, um grupo de estudantes fuma maconha e questiona-se sobre seu presidente (seria ele um fascista de esquerda ou um fascista de direita?). Os mais exaltados tramam planos para derrubá-lo do poder.

Perto do centro geodésico, onde o sol é mais forte, quatro homens jogam baralho há quatro dias sem parar. Todos os quatro já perderam todo o dinheiro que tinham nas apostas do jogo e mesmo assim continuam a jogar. Mas onde está o dinheiro que trouxeram? “Algum negro deve ter roubado”, pensam rapidamente para não perderem a concentração no jogo. E continuam a jogar e a perder dinheiro, todos os quatro.

No exército de um país em guerra dois soldados homossexuais transam dentro da sala do general. A mulher de um deles chega à sala e acompanha tudo. Lá fora, sob a chuva, um impaciente sargento berra com seus soldados na trincheira que armaram para o inimigo. Seus soldados, contudo, não parecem lhe conferir muita atenção, já que o jogo de futebol na televisão está bem mais interessante.

A alguns muitos países a sudoeste, um casal, (ela de doze, ele de quatorze) perde, mutuamente, sua virgindade. Ela, ansiosa, pensa em como pedirá à mãe para comprar-lhe anticoncepcionais; Ele, orgulhoso, pensa no orgulho que o pai lhe terá. No próximo continente, em direção contrária ao nascimento do sol, um garoto de dez anos masturba-se ao espiar, escondido, sua mãe a trocar de roupas. Materializa assim, ainda de que de forma canhestra, seu Complexo de Édipo.

No próximo país que estiver nevando neste momento, uma garota lê Dostoievski e masturba-se ao pensar no drama que é o humano. Em qualquer lugar, no exato momento em que atinge o orgasmo, uma criança morre de fome.

Dali a muitas e longas milhas, um casal de 65 anos transa e fuma ouvindo Mozart e Bach. Os dois gozam e fumam muito. Não veem graça em posições convencionais e continuam a inventar as suas próprias. Continuam a fumar e a gozar bastante.

Mais uma criança morre de fome agora enquanto, neste exato momento em que tu me lês, em uma grande empresa multinacional, um dos diretores trai sua esposa com o faxineiro.

Num convento católico de um país de maioria budista, uma freira espia os futuros padres a banharem-se nus no rio. Perto dali (e talvez muito mais perto daqui) um padre e um psicólogo trocam confidências... alheias!

Alguns muitos graus ao sul, dois irmãos brigam pela herança pobre que seu falecido pai lhes deixara. Repetem, agora, quase adultos, as brigas que mantinham quando crianças pelos times de botão ou pelo controle da televisão.

Quase adultos também, um casal de namorados brinca de marido e mulher na frente do gato de um deles. O felino observa tudo atentamente, talvez presenciando o maior ato humano: a consumação do amor! Ou talvez simplesmente não entendendo nada...

Ao meu redor, o mundo transborda de acontecer. Incha-se de tanta vida: lágrimas, gozos, suores, sol, mar, dores, angústias... vida. Talvez tudo isso realmente esteja acontecendo enquanto a ponta de minha caneta desliza suave e sem pausa pela superfície branca do papel.

Neto Muniz
08.04.2011

domingo, 2 de março de 2014

O Primo do Basílio

Mayara devia ser escrito com “i”, contudo Mayara adorava seu nome grafado com ípsilon. Bonita de cara e de um moreno agradável aos olhos. Uma pele macia embrutecida por seus trinta e poucos anos de vida. Um corpo ainda rígido, porém no qual reverberava os efeitos de um parto.

Administradora, pós-graduada. Bons rendimentos mensais. Casa própria (“toda no azulejo”, como dizia a vizinhança). Um marido que se não chegava a ser bonito, também não se podia dizer que era feio. Admitia-lhe um querer, entretanto, nunca sentira por ele o mesmo tesão que dispensara a Sylvio.

Sylvio – que ainda lhe tira o fôlego à mera lembrança – fora seu amor adolescente. O relacionamento acabara de uma forma trágica: aparecera uma moça grávida atribuindo-lhe a paternidade. Sem dúvidas, um grande choque para Mayara. Uma lástima! Optara, pois, pelo plano B: Basílio. Seu esposo fora imposto por uma travessura alheia, muito mais que por uma escolha sua.

Já são quase 10 anos de casamento (menos de um mês de namoro, 05 dias de noivado) e Mayara, em não raras vezes, sente asco de seu marido. Relações sexuais lhe rendem dupla dor: por não lhe ter tesão, não lubrifica; por não lhe ter amor, não se identifica.

Por cristã protestante que é, sente-se bastante culpada por não dispensar amor ao esposo, que recebera perante um ministro de Deus. Pensar em trair-lhe era algo incontinenti rejeitado, visto que “não seria direito”.

Porém as lembranças de Sylvio e todo o prazer que este lhe rendia – a despeito de regras comunitárias, agenciamentos sociais, sanções religiosas etc – povoavam sua vida consigo mesma. Sylvio era um espetáculo e a fazia sentir mulher. Até seu cheiro de suor a inebriava. Amava-o, certamente – roguemos que Basílio nunca venha a disso ter conhecimento.

Gostava de Basílio, isso era inconteste – porém não era amor e se amor fosse, seria apenas aquele amor que se devota a um irmão. Bom pai, rendimentos médios, companheiro, pouco ciumento; amava-a com uma certeza indubitável. Em que pese o “perfil do marido invejável” que desperta, inclusive, cobiça em suas amigas mais íntimas, o “amor” de Mayara por Basílio só sobrevivera aos primeiros meses de casório. Na cama, o esposo tinha um fôlego incomum e a frigidez da esposa nunca o saciava.

O inamado Basílio já tentara de muitas coisas para conseguir a atenção amorosa de sua esposa: viagens, visitas surpresas durante o dia no trabalho, flores em dias vulgares, afrodisíacos variados... 

Parece que Basílio ainda não aprendera que o maior afrodisíaco vem da carne. 

Em mesas de bar já derramara copiosas lágrimas em ombros de desconhecidos garçons (evitava os mesmos bares para não topar sem querer com garçons que já o acolheram – estratégia que, de quando em vez, mostrava-se falha).

Ambos sofriam com o desamor de Mayara: ele, pela incerteza do amor; ela, pela certeza do inamor.

Não obstante todo o aparato de sofrimento que permeia o desventurado casal, uma situação incauta emerge. Há alguns anos, Basílio achara de pedir para fazer sexo por trás. Pedira não, implorara. Insistira, rogara, humilhara-se. Uma situação extremamente constrangedora para o par. Basílio, por ter sido negado um pedido; Mayara por não conseguir conceder o mesmo pedido. Ambos choraram na mesma cama do desamor. A desdita instalara-se no bojo do casal com mais intensidade a partir daquele episódio. 

Apesar do vexatório evento, vez por outra Basílio, ainda que de início timidamente, solicita a posse às avessas de Mayara como prova de amor. Que amor?, indaga-se, dolorosamente, a mulher. Tinha muita vontade de ter vontade de dar-se assim para seu esposo. Mas qual, isso é coisa de puta, imagina se o pastor desconfia. Além do mais, como se submeteria a tal modalidade se não se agradava nem com posições convencionais com seu marido? E as amigas a invejavam por ter um “homem impecável”... aff, invejável era gozar na cama!

Forçoso é dizer que eu, contador desta história tenho imperfeições de memória e de coerência. Eis que me ocorre que Sylvio, amante de outrora, era primo de Basílio, configurando-se como amigo de portas abertas da casa, “daqueles de ter uma cópia da chave da porta da frente”, como diria um velho rodrigueano.

Fato é que Sylvio instalara-se, chegando de lugares ignorados, em um hotel perto da casa do casal sem amor. Boêmio e mulherengo, à guisa de um Don Juan del Marco contemporâneo, casara-se 03 vezes no interim que Basílio e Mayara contrataram casamento. Hoje, solteiro, vive de pensões que suas antigas esposas – deliberadamente – lhe dispensam.

Alguns contatos fortuitos de Sylvio com Mayara. Tentativas em vão. Em vão? Mayara já se molhava toda em vê-lo. Jamais imaginava (embora desejasse bastante!) que Sylvio ainda fosse tentá-la. Envergonhara-se da própria ingenuidade: embora primo de seu cônjuge, Sylvio era um canalha e nunca deixaria de ser. Tentá-la-ia até a sedução.

Mayara, como que uma Julieta Capuleto às avessas, regozijava-se em saber que ainda chamava a atenção do sexo oposto – há, porventura, alguém que não goste de sentir-se desejado? A despeito de tal interesse vir de um primo de Basílio, assim mesmo Mayara se regozijava.

Forçoso é concluir que acabara cedendo, se dando. Acabara cansada, melada e gozada tal qual em tempos de mocidade. Ah, os 20 anos revividos aos 30!

Já no segundo encontro, Sylvio, sem aviso prévio e aproveitando-se da posição (hierárquica?), possuíra-lhe as carnes avessamente. Uma queimação; uma dor irreconhecível, nunca dantes vivida, acalmada por um sussurro másculo à orelha; um prazer, não sem dor, indizível. Um prazer tão gostoso que, por assim dizer, envergonhara-se de senti-lo. Desejou mais, contudo constrangera-se mais ainda. Felizmente encontrara forças no próprio pudor para não solicitar ao seu algoz que fosse novamente enrabada.

Cedera. Aquilo a que mais deplorara em uma mulher acabara fazendo. E a figura do pastor lhe recobria a mente como uma nuvem negra tapa o sol instalando a escuridão. Ao lembra-se do ministro de Deus, imaginava que seu nome não mais devia ser Mayara, era puro demais para a impureza que agora representava. Devia chamar-se por adjetivos, não por referência a nomes próprios. 

Com seu esposo, que recebera mediante Deus, nunca fizera isso – o que, em todo caso, não deixaria de ser uma grande iniquidade. Traíra-lhe. Mas isso não doía tanto – ou pelo menos não era o que doía mais. Desamparava Mayara o fato de ter se deixado possuir avessamente, à revelia da natureza. Além do mais, dera a bunda a quem não lhe devotava amor, senão tesão. Seu esposo já lhe pedira tantas vezes como prova de amor e, tantas quantas lhe pedira, tantas lhe negara. Angústia maior era perceber que, a despeito de tudo, nunca havia sentido tamanho prazer, nunca se sentira tão plenamente mulher...
Daquele dia em diante, ver Basílio tornara-se uma tortura. Mais aversivo ainda era perceber, em proporção inversa à sua, a dedicação de seu companheiro e suas tentativas – de fato em vão – de conseguir-lhe o amor. Com ele fazia – e quando fazia – sexo. Literalmente sexo. Nada mais que sexo. Na hora do amor, muitas vezes inventava sussurros; doutras feitas, fazia contas referentes a seu trabalho; doutras, lembrava-se do almoço de amanhã; muito pouca vez concentrara-se; gozava quase nunca.

E Sylvio tornara-se cada vez mais íntimo na vida de Mayara. Era o homem que lhe fazia suspirar, lubrificar, gemer, sorrir.

E Mayara só lembrava que dia chegaria que Basílio lhe suplicaria novamente a posse invertida. Até quando conseguiria resistir a tamanha dor incorpórea?

27.abr.2012

Neto Muniz