domingo, 9 de março de 2014

Compaixão

Os raios solares cintilavam toda a extensão territorial, onde se encontrava José. Um balde, preso a uma corda, emergia de um profundo poço já quase seco pela escassez de chuva. O conteúdo contido no recipiente era barrento, era sujo, era impuro, era água. Nosso amigo José fizera uma longa caminhada de sua casa ao presente local. A maioria dos rios encontrava-se vazios; este poço, em pouco tempo, não seria mais exceção.  

José, neste instante, regressa à sua casa. Vai devagar, com passadas lentas, quase rasteja. Segura, em cada uma das mãos, um balde. O líquido, transparente por origem, encontra-se com cor. O trajeto é longo, árduo; o agricultor, dizemos assim sua profissão por força do hábito, pois em períodos assim, esse trabalho tão digno torna-se impraticável, encaminha-se ao seu modesto lar, perdido em pensamentos.     

José ultrapassa os trinta anos, possui altura regular, uma fisionomia fatigada, enrugada, beirando a tristeza. Casado há alguns anos, possui um único filho batizado de Francisco, pelo qual guarda um amor incondicional. Desde o nascimento da criança, há pouco mais de sete anos, José vira sua existência ganhar um novo horizonte, um novo sentido. Tinha pena de seu amado filho, é verdade, de não poder proporcionar-lhe uma vida diferente daquela, que suas míseras condições poderiam sustentar, todavia dia após dia, debaixo do sol ardente lutava, constantemente, não para dar uma vida pomposa à sua família, já que essa esperança nunca teve, mas para ser o melhor marido e pai que conseguisse.

Depois de uma penosa caminhada, nosso conhecido chega, enfim, à sua morada. A casa é simples, de taipa, teto baixo, com a porta principal bem gasta. José entra quase sem fazer barulho. À janela, está Fátima, sua esposa, com o queixo apoiado na mão, tendo o cotovelo sobre a mesma janela. Fátima permanece estática, parece nem se dar conta da presença de José. Seus olhos, neste momento, brilham, enquanto observa o quintal. Sua boca esboça um sorriso discreto, que se concretiza logo após. Com a atenção, até então, fixa no quintal, volta-se ao marido, quando ouve sua voz grave, porém amigável. 

- Voltei, mulher!

- Que bom, José, ainda tinha água naquele poço? – indagou Fátima como se lembrasse de perguntar algo importante.

- Tinha, graças a Deus, mas não tarda a secar.

- Ah, estou tão preocupada, José, parece que esse ano será como o outro, com pouca chuva – disse taciturna. 

- Deus sabe o que faz, mulher! – respondeu José de prontidão.

Não se surpreenda o leitor com tamanha fé, já que as pessoas, principalmente as mais necessitadas, sentem-se confortadas ao saber ou pensar que há alguém, em um plano superior, prontos a socorrer-lhes mesmo nos momentos chamados conturbados. 

O agricultor pôs a água de ambos os baldes em um compartimento maior. Dirigindo-se, logo após, à janela, o rosto de José tomara um caráter afável, seu coração contraiu-se não de dor, mas de orgulho e alegria. Contemplava, esquecido do mundo, Francisco, de cócoras, nu da cintura para cima, sem chinelos, notavelmente franzino, cabelo crespo, a brincar. O pai da família deu a volta pela porta e, sem se deixar notar, abraçou, de surpresa, o seu único filho. 

- Esse menino passa o dia inteiro brincando – falou José sorrindo, enquanto abraçava o filho.

- Quando o senhor vai me ajudar a fazer meu carrinho, pai? – perguntou o garoto já exaltado pela presença do pai.

- qualquer dia, meu filho. Hoje, papai tem de ir à cidade.

- O que o senhor vai fazer lá?

- Tentar arrumar algum serviço para poder comprar o seu material escolar – disse José, beijando a cabeça do filho. 

Francisco viu seu pai tomar o rumo da casa e ouviu sua mãe avisando-o para almoçar antes da partida. O garoto frequentará o segundo ano do colegial, e neste, assim como no ano anterior, era encontrada, por parte dos pais, dificuldade para comprar seus materiais de estudo. Apesar de bastante jovem, a criança estava ciente da situação alarmante que se encontravam. Sabia, antes de tudo, da crise financeira que sempre os acompanhou, preocupava-se também com a ausência de tempos chuvosos, pois era este o principal fator que agravava a situação econômica daquela família necessitada por natureza. Nosso jovem habituara-se a essa vida contida de bens materiais, à falta de recursos até mesmo para as necessidades básicas como roupa e comida, no entanto, jamais questionara o esforço dos pais em oferecer-lhe, dentro de suas sórdidas condições, o melhor que pudessem. Possuía o amor de seus pais, sentia-o nas carícias, nos gestos, nas palavras. Sonhava um dia ter profissão, formar-se e, desta forma, amparar os seus protetores. Tinha conhecimento da dificuldade que encontraria nessa jornada rumo ao futuro mais digno, contudo estava bastante agitado com o retorno das aulas, estudará na mesma escola do ano pretérito, reencontraria seus amigos que, sejamos francos, não eram poucos. Mostrara-se, no colégio, um garoto muito sociável, amigável e dedicado aos estudos; talvez, por isso, foi alvo de constantes elogios por parte dos professores. 

- Tira a roupa do varal e traz pra cá, Francisco – gritou Fátima de dentro da casa.

- Estou indo – falou Francisco em resposta.

O garoto foi ao varal e, uma por uma, recolheu todas as peças, penetrou a casa com o amontoamento de roupas entre as mãos, segurava-o com dificuldade, Fátima veio logo à porta e o ajudou a pô-las sobre a cadeira. Francisco tinha os olhos em cima de uma vestimenta em especial, olhava-a fixamente como se observasse um artefato místico, todavia não pense o leitor que atentamos, aqui, ao sobrenatural, sendo que nada mais era do que a blusa do uniforme escolar de Francisco. De tamanho P, colarinho azul, tendo o emblema da instituição ao peito esquerdo; a blusa branca por natureza, dizemos por natureza, porque manchas amareladas estavam já perceptíveis, dava sinais de muito uso, mas como seu pai afirmara-lhe ser inconcebível a compra de uma nova, Francisco a usaria por pelo menos mais um ano. Com o pouco capital de que a família dispunha, tornava-se penosa qualquer tentativa de obter algo além de comida. Aparato por parte do governo não havia, nem mesmo uma política ou projeto educacional que fornecesse os utensílios básicos necessários para exercer-se a função de aluno, pois os homens que controlam a economia e regem as leis têm mais o que fazer.  

José, à porta da prefeitura da cidade na qual é nativo, que fica a poucos quilômetros de sua morada, está, em seu íntimo, apreensivo; pois trabalho não conseguira. Recorre, em última esperança, ao prefeito. Ao entrar, depara-se com a secretária, que logo pergunta:

- Boa tarde, senhor, posso ajudá-lo?

- boa trade, senhora, é porque eu queria falar com o prefeito – disse José hesitante.

- Você poderia adiantar o assunto? – falou a secretária com um leve sorriso.

- Vai começar as aulas do meu filho, e eu não tenho como comprar o material dele... – José foi interrompido pela secretária que já havia entendido a situação. 

- Pode deixar, senhor, qual o seu nome mesmo?

- José.

- Seu José, espere aqui, vou ver se o prefeito está presente no gabinete.

José sentou-se, com seu ar humilde, chapéu de palha à mão, usava uma blusa azul, de mangas curtas, rente ao cotovelo; a calça cinza, de pano leve, um pouco larga para seu corpo magro, dava algo de desajustado na aparência de José. Não usava sapatos, não os tinha, os pés firmavam-se sobre chinelos velhos, pois era o que dava para comprar. O único sapato que havia em sua casa pertencia a Francisco, José os adquirira depois de muito esforço, comprou-os para que seu filho pudesse comparecer, o mais descente possível, ao aniversário de seu colega do colégio, que o convidou com muito carinho. Na ocasião, nem mesmo presente Francisco levou. A dívida pecuniária deixada pela obtenção dos sapatos era exorbitante por si só. O leitor deve saber que a quantia referida não ultrapassa quarenta reais, entretanto levando em conta as condições precárias dessa família, a mesma dívida parecia agigantar-se.  
Um homem trajado formalmente estava sentado a uma mesa. O imóvel tinha, sobre si, muitos papéis. Aquele senhor calvo, um pouco acima do peso, parecia extremamente enfastiado com tudo aquilo. Segurava uma caneta, que largou após ouvir um ruído vindo da maçaneta da porta. 

- Senhor prefeito, tem um homem chamado José querendo falar com você, parece que ele deseja uma pequena quantia em dinheiro para comprar o material escolar do filho – disse a secretária já fechando a porta atrás de si. 

- Este José é aquele que mora um pouco afastado da cidade? – perguntou exaltado o prefeito.

- Creio que sim, é um sujeito magro, moreno – resmungou a secretária.

- Eu o conheço bem – disse o prefeito enraivecido – na eleição anterior, ele votou no candidato da oposição, diga a ele que eu estou ausente, ora essa, é cada um que me aparece – terminou o prefeito indignado. 

A secretária tomou o procedimento imposto pelo prefeito, ou seja, dizer a José que o mesmo estava ausente. Nosso agricultor esboçou poucas palavras, deu boa tarde e se retirou. Ia andando a passos vagarosos pelas ruas, seus olhos lacrimejavam, com a alma amargurada vagava para casa. Tentaria, no dia seguinte, conseguir alguma remuneração em troca de serviço. Sentiu, de súbito, uma gota d’água tocar-lhe o braço, levantou os olhos, o céu estava escuro, tenebroso, logo choveria. Talvez fosse esse o prenúncio de dias melhores, mas somente o tempo poderá concretizar tal afirmação. 

Kelvis Albuquerque
Coreaú/CE

Gota d'água

Sou uma gota d'água
Hora na calçada
hora no pote
hora no mar

Sou uma gota de chuva
Esperando a hora de molhar

Sou uma gota nas nuvens
Vento leva, vento trás.

Sou uma gota de
Água doce, água salgada.

Sou apenas uma gota,
Gota d'água.

Messias Pinheiro
Iguatu/CE
01 fev. 2014

De repente

Vou tentar ao meu modo,
Sem rimas e sem métricas,
Livres, como eu,
Alguns versos que façam sentido
Para mim e para você.
Não me importo com o mundo,
Nem com as impossibilidades
Que você mesmo impõe.
Sem você eu sou livre
Ainda que presa às grades dos teus nãos.
Com você eu seria livre também
Eu seria livre de qualquer forma.
Porque sou livre para voar.
Mas não penso em mim, somente,
Penso em ti, principalmente...
Eu não te prenderia,
Como jamais te surpreenderia,
Porque, querido, surpreender é trair
Fazer algo inesperado, te dar prazeres
Para depois te machucar... Não, eu não faria.
Faria em oculto, com a sua permissão,
Com seu consentimento. Eu te daria 
Minha liberdade de voar se você não tivesse medo 
De enfrentar as alturas em uma queda livre,
Para aprender a voar.

Solange Guimarães
Aracati/CE
09 mar. 2014

Raiz-de-poesia

Qual raiz de poesia
firme-me, desarmonia
solte-me, indisciplina
que as palavras sejam livres
solfejem versos ofegantes
gritem rimas elegantes
desentendidas e disformes
sintetizem-se em arrepios
tal primeiro beijo de menina
pois a poesia só traduz
o que não compreende
só conduz ao que sente
e que as palavras tentam domar
em vão
essa elucubração indecente!

Benedito Rodrigues
Coreaú/CE
09 mar. 2014

quinta-feira, 6 de março de 2014

Beleza campestre

Nos anos 50, existia o conhecido Haras Dulcinéia, localizado no município de Chorozinho no meu Ceará, e que até hoje relembra muitas histórias jubilosas, vitórias e premiações de seus cavalos de raça em Fortaleza e Rio de Janeiro, contadas e recontadas aos seus visitantes para o deleite de seus ancestrais.

Há seis anos esse espaço deu lugar a um privilegiado hotel fazenda, onde podemos encontrar simplicidade, bem estar e muito verde, num agradável contato com a natureza. A maioria das antigas baias dos animais foi substituída por confortáveis acomodações pra receber pessoas que - como eu - gostam de desfrutar de um ambiente campestre, tranquilo e acolhedor.

A pequena casa de seus antigos proprietários continua lá, nos convidando a visitar e conhecer um pouco da história desse casal de imigrantes europeus quando aqui chegaram. A velha mobília, lampiões e lamparinas, retratos nas paredes, troféus, louças de porcelana, pote e quartinha de barro, rádio antigo e fogão a lenha se destacam aos nossos olhos ávidos por surpresas.

E foi numa dessas tardes quentes de outubro, durante um divertido passeio de charrete que pude me encantar com bucólicas paisagens: Verdes e frondosas árvores que balançavam ao som dos ventos, pássaros que cantavam acompanhando essa doce melodia, num bailado feliz e harmonioso com os espertos saguis que corriam por entre as copas das mangueiras e cajueiros repletos de frutos amarelos. Ao longe, um carnaubal complementava essa valorosa área de preservação ambiental.

Agora vejo num pequeno ninho um pardal alimentando seu indefeso filhote e passo a contemplar ainda mais a natureza.

O entardecer vinha chegando e o magnífico espetáculo do pôr do sol  embelezava aquele momento corriqueiro e às vezes pouco apreciado...

A fulgurante estrela despediu-se rapidamente e nos brindou com a chegada da  lua cheia .Naquele  instante um misto de saudade e melancolia  brotaram em meu coração, lembranças contidas  no âmago de  meu ser...

Os coelhos passavam céleres para seus abrigos. As ovelhas silenciavam em seus currais. Galinhas, gansos e calopsitas também queriam se aquietar. Os cavalos já estavam em suas baias. Era chegada a hora de dormir.

O céu sublime, inspirador e o clarão da lua nos convidava  a uma noite de mais reflexões e agradecimentos  ao ser supremo  por esse momento efêmero e especial... 

Nice Arruda
Icó/CE

Castorina Pinto

Certa feita, cheguei a pensar que, em matéria de apelidos, Coreaú fosse insuperável. Desde tempos remotos, passando pela alteração do nome da Palma, nos idos de 1943 – época em que o folclórico Alberto Carmo, veemente adversário do nome de Penanduba, que reputava horroroso, acabou recebendo para sempre a alcunha de (...) Penanduba! –, até os tempos modernos, com a média ainda de quase um apelido per capita, desde os suportáveis e levemente jocosos até os de extremado mau gosto, capazes de destroçar a própria dignidade das pessoas, não há negar que Coreaú seja pródigo em se tratando de epíteto. No entanto, a cidade que ostenta a fama internacional de "Terra dos Apelidos" é Aracati, graças sobretudo a Castorina Pinto, a mais célebre "botadeira de apelidos" que a história já registrou.   

Há mais de uma década, Franzé Gomes havia-me contado a história de um causídico que, numa visita a Aracati para uma audiência judicial, receoso da mulher dos apelidos, apesar de toda discrição e esquivança, não conseguira furtar-se da verve perspicaz de Castorina. 

Nas voltas que a vida dá, na reunião passada da Academia Aracatiense de Letras, no Museu Jaguaribano, descobri que naquele mesmo prédio havia funcionado o hotel de Teófilo Pinto, cuja administradora era sua irmã, ninguém menos que Castorina Pinto. Fora, enfim, aquele exato casarão o palco do episódio do advogado. 

Castorina não perdoava ninguém. A um juiz de cabeça grande apelidou de "Cabeça de Comarca"; a um rapaz difícil de casar chamou de "Cédula Falsa"; nem Dom Manuel, filho ilustre de Aracati, escapou, pois tantos eram os adereços com que se apresentava que ficou apelidado de "Bolo Enfeitado"...

O advogado se hospedara no hotel de Teófilo Pinto, mas deu sorte de não topar com Castorina nos dois dias em que permaneceu na cidade. A "botadeira de apelidos" convalescia de um resfriado e resolvera não aparecer no hotel por uns dias. Como sabia da fama da mulher e de que ela morava na mesma Rua Grande, adotou o hóspede todo o cuidado possível para não ser avistado (e apelidado) por ela. Tentou se furtar o quanto pôde. Não andava pela rua, não conversava na calçada do hotel, não parava na portaria e se trancava todo o tempo que podia no quarto, com as janelas sempre fechadas. 

Depois que partiu no ônibus de volta para Fortaleza, o advogado ficou aliviado; afinal, talvez tivesse sido o único sujeito a andar pelo Aracati sem ter sido vítima dos apelidos de Castorina... 

Quando no dia seguinte, porém, ela apareceu no hotel, o recepcionista logo a interpelou:

– Finalmente alguém passou por esta terra sem levar um apelido seu, dona Castorina! 

Ao que ela, de pronto, respondeu:

– Quem? O "Rato de Gaveta"? 

Eliton Meneses
Fortaleza/CE
09 fev. 2014

Ouçam!

Ouçam!
Existe um santo perto de você.
Um santo dentro de você.
Ouça a voz da santidade,
Ouça o pecado que fala.

Ouçam!
Os santos que gritam e tem fome
Que lacrimejam suas dores
Que almejam o perdão
Buscam o Amor

Ouçam!
A música dos carros,
O canto das aves,
O ninar das crianças
O Santo Pecado.

Messias Pinheiro
Iguatu, 23/02/14

domingo, 2 de março de 2014

O Primo do Basílio

Mayara devia ser escrito com “i”, contudo Mayara adorava seu nome grafado com ípsilon. Bonita de cara e de um moreno agradável aos olhos. Uma pele macia embrutecida por seus trinta e poucos anos de vida. Um corpo ainda rígido, porém no qual reverberava os efeitos de um parto.

Administradora, pós-graduada. Bons rendimentos mensais. Casa própria (“toda no azulejo”, como dizia a vizinhança). Um marido que se não chegava a ser bonito, também não se podia dizer que era feio. Admitia-lhe um querer, entretanto, nunca sentira por ele o mesmo tesão que dispensara a Sylvio.

Sylvio – que ainda lhe tira o fôlego à mera lembrança – fora seu amor adolescente. O relacionamento acabara de uma forma trágica: aparecera uma moça grávida atribuindo-lhe a paternidade. Sem dúvidas, um grande choque para Mayara. Uma lástima! Optara, pois, pelo plano B: Basílio. Seu esposo fora imposto por uma travessura alheia, muito mais que por uma escolha sua.

Já são quase 10 anos de casamento (menos de um mês de namoro, 05 dias de noivado) e Mayara, em não raras vezes, sente asco de seu marido. Relações sexuais lhe rendem dupla dor: por não lhe ter tesão, não lubrifica; por não lhe ter amor, não se identifica.

Por cristã protestante que é, sente-se bastante culpada por não dispensar amor ao esposo, que recebera perante um ministro de Deus. Pensar em trair-lhe era algo incontinenti rejeitado, visto que “não seria direito”.

Porém as lembranças de Sylvio e todo o prazer que este lhe rendia – a despeito de regras comunitárias, agenciamentos sociais, sanções religiosas etc – povoavam sua vida consigo mesma. Sylvio era um espetáculo e a fazia sentir mulher. Até seu cheiro de suor a inebriava. Amava-o, certamente – roguemos que Basílio nunca venha a disso ter conhecimento.

Gostava de Basílio, isso era inconteste – porém não era amor e se amor fosse, seria apenas aquele amor que se devota a um irmão. Bom pai, rendimentos médios, companheiro, pouco ciumento; amava-a com uma certeza indubitável. Em que pese o “perfil do marido invejável” que desperta, inclusive, cobiça em suas amigas mais íntimas, o “amor” de Mayara por Basílio só sobrevivera aos primeiros meses de casório. Na cama, o esposo tinha um fôlego incomum e a frigidez da esposa nunca o saciava.

O inamado Basílio já tentara de muitas coisas para conseguir a atenção amorosa de sua esposa: viagens, visitas surpresas durante o dia no trabalho, flores em dias vulgares, afrodisíacos variados... 

Parece que Basílio ainda não aprendera que o maior afrodisíaco vem da carne. 

Em mesas de bar já derramara copiosas lágrimas em ombros de desconhecidos garçons (evitava os mesmos bares para não topar sem querer com garçons que já o acolheram – estratégia que, de quando em vez, mostrava-se falha).

Ambos sofriam com o desamor de Mayara: ele, pela incerteza do amor; ela, pela certeza do inamor.

Não obstante todo o aparato de sofrimento que permeia o desventurado casal, uma situação incauta emerge. Há alguns anos, Basílio achara de pedir para fazer sexo por trás. Pedira não, implorara. Insistira, rogara, humilhara-se. Uma situação extremamente constrangedora para o par. Basílio, por ter sido negado um pedido; Mayara por não conseguir conceder o mesmo pedido. Ambos choraram na mesma cama do desamor. A desdita instalara-se no bojo do casal com mais intensidade a partir daquele episódio. 

Apesar do vexatório evento, vez por outra Basílio, ainda que de início timidamente, solicita a posse às avessas de Mayara como prova de amor. Que amor?, indaga-se, dolorosamente, a mulher. Tinha muita vontade de ter vontade de dar-se assim para seu esposo. Mas qual, isso é coisa de puta, imagina se o pastor desconfia. Além do mais, como se submeteria a tal modalidade se não se agradava nem com posições convencionais com seu marido? E as amigas a invejavam por ter um “homem impecável”... aff, invejável era gozar na cama!

Forçoso é dizer que eu, contador desta história tenho imperfeições de memória e de coerência. Eis que me ocorre que Sylvio, amante de outrora, era primo de Basílio, configurando-se como amigo de portas abertas da casa, “daqueles de ter uma cópia da chave da porta da frente”, como diria um velho rodrigueano.

Fato é que Sylvio instalara-se, chegando de lugares ignorados, em um hotel perto da casa do casal sem amor. Boêmio e mulherengo, à guisa de um Don Juan del Marco contemporâneo, casara-se 03 vezes no interim que Basílio e Mayara contrataram casamento. Hoje, solteiro, vive de pensões que suas antigas esposas – deliberadamente – lhe dispensam.

Alguns contatos fortuitos de Sylvio com Mayara. Tentativas em vão. Em vão? Mayara já se molhava toda em vê-lo. Jamais imaginava (embora desejasse bastante!) que Sylvio ainda fosse tentá-la. Envergonhara-se da própria ingenuidade: embora primo de seu cônjuge, Sylvio era um canalha e nunca deixaria de ser. Tentá-la-ia até a sedução.

Mayara, como que uma Julieta Capuleto às avessas, regozijava-se em saber que ainda chamava a atenção do sexo oposto – há, porventura, alguém que não goste de sentir-se desejado? A despeito de tal interesse vir de um primo de Basílio, assim mesmo Mayara se regozijava.

Forçoso é concluir que acabara cedendo, se dando. Acabara cansada, melada e gozada tal qual em tempos de mocidade. Ah, os 20 anos revividos aos 30!

Já no segundo encontro, Sylvio, sem aviso prévio e aproveitando-se da posição (hierárquica?), possuíra-lhe as carnes avessamente. Uma queimação; uma dor irreconhecível, nunca dantes vivida, acalmada por um sussurro másculo à orelha; um prazer, não sem dor, indizível. Um prazer tão gostoso que, por assim dizer, envergonhara-se de senti-lo. Desejou mais, contudo constrangera-se mais ainda. Felizmente encontrara forças no próprio pudor para não solicitar ao seu algoz que fosse novamente enrabada.

Cedera. Aquilo a que mais deplorara em uma mulher acabara fazendo. E a figura do pastor lhe recobria a mente como uma nuvem negra tapa o sol instalando a escuridão. Ao lembra-se do ministro de Deus, imaginava que seu nome não mais devia ser Mayara, era puro demais para a impureza que agora representava. Devia chamar-se por adjetivos, não por referência a nomes próprios. 

Com seu esposo, que recebera mediante Deus, nunca fizera isso – o que, em todo caso, não deixaria de ser uma grande iniquidade. Traíra-lhe. Mas isso não doía tanto – ou pelo menos não era o que doía mais. Desamparava Mayara o fato de ter se deixado possuir avessamente, à revelia da natureza. Além do mais, dera a bunda a quem não lhe devotava amor, senão tesão. Seu esposo já lhe pedira tantas vezes como prova de amor e, tantas quantas lhe pedira, tantas lhe negara. Angústia maior era perceber que, a despeito de tudo, nunca havia sentido tamanho prazer, nunca se sentira tão plenamente mulher...
Daquele dia em diante, ver Basílio tornara-se uma tortura. Mais aversivo ainda era perceber, em proporção inversa à sua, a dedicação de seu companheiro e suas tentativas – de fato em vão – de conseguir-lhe o amor. Com ele fazia – e quando fazia – sexo. Literalmente sexo. Nada mais que sexo. Na hora do amor, muitas vezes inventava sussurros; doutras feitas, fazia contas referentes a seu trabalho; doutras, lembrava-se do almoço de amanhã; muito pouca vez concentrara-se; gozava quase nunca.

E Sylvio tornara-se cada vez mais íntimo na vida de Mayara. Era o homem que lhe fazia suspirar, lubrificar, gemer, sorrir.

E Mayara só lembrava que dia chegaria que Basílio lhe suplicaria novamente a posse invertida. Até quando conseguiria resistir a tamanha dor incorpórea?

27.abr.2012

Neto Muniz