sexta-feira, 6 de março de 2015

REFLEXO

Vejo-me refletida
No translúcido do céu
Infinito mundo
Nosso cenário
Observo- me
Envolta numa aura
Ninho tecido de amor
Com fios de voz rouca,
Mansa e suave
Que encanta e seduz
Vejo- me luminosa
Mergulhada na tua luz
Que não apaga
Mesmo quando se esconde
Observo - me cercada
Do amor mais puro
Que nasceu em nós
Numa tarde comum
Vejo - me tão brilhante
Serena e calma
Esperando o amanhecer
Quando tu renascerá
Para iluminar o meu mundo
Sombrio sem você
Observo - me prateada
Mergulhada na escuridão
Apenas refletindo teu claro
Lançado em teus raios
De paixão sem fim.

Aninha Martins
Ipu - CE

HAICAIS

i.
Vamos, meu amigo,
Se tens medo de ir sozinho,
Eu irei contigo.

ii.
A noite é escura,
Mas a besta que ela esconde
Tem pouca cultura.

iii.
Saia desse abrigo!
O que queres nesta vida
Sem correr perigo?

iv.
Mude de postura,
Por detrás daquela serra,
Há muita verdura.

v.
Cumpra o artigo
Do decreto que dispõe:
Não serás testigo!

vi.
Enfrente a censura,
Realmente o monstro é feio,
Mas só tem figura.

vii.
Plante aquele trigo,
Inda durante a estiada,
Terás o que digo.

viii.
Largue de frescura,
Cada tempo tem seus males
E sua doçura.

ix.
Deixe o vezo antigo;
Tenha os olhos pra enxergar
Além do umbigo.

x.
Seja a loucura
Que van Gogh fez vibrar
Na sua pintura.
 
Eliton Meneses
Coreaú - CE

O GAVIÃO DA TARDE

Era coisa certa como, todo dia à tardinha, o sol se põe detrás da serra Grande. Primeiro o gavião. Sem mais nem ver lá estava ele sobrevoando o fundão da Igreja ou pousado nalguma das quatro janelinhas da torre, espreitando estrategicamente a presa cobiçada que haveria de surgir, em instantes; voando às cegas. A igreja, naqueles derradeiros anos da década de cinquenta ─ tempo dos acontecidos contados aqui ─ era o maior prédio da cidade. 

Não era dos grandes e, enquanto aguardava o momento do ataque, planava com elegância ao sabor dos ventos soprados das ribeiras do Coreaú. Olhando de baixo, dava pra ver bem sua plumagem luzidia, efeito dos últimos raios do sol poente; papo branco acinzentado, asas matizadas de preto nas pontas. Unhas-garras afiadas, bico de águia; pequeno! Todas as armas para uma caçada o danado tinha. Pelo registro da minha memória batia com as características do gavião Carijó, o popular pega-pinto, muito encontrado naquelas paragens ribeirinhas do Coreaú. O causo acontecia todo dia, quando o sol retirante dourava o telhado das casas simples da cidadezinha e as sombras, da noite anunciada, escureciam a faixa de mata verde que, naquele tempo, ainda margeava o rio. Era lá, nos socavões do Poço do Carro que, aninhados, provavelmente, numa vetusta mutambeira, esperavam pelo jantar do dia sua senhora gavião e sua prole. Era sempre pra lá que ele voltava toda vez que fisgava um guandira.

Naquela vila, costumeiramente sem novidades, um expectador solitário de olhos voltados para o céu, postava-se, de pé na calçada de sua bodega, para testemunhar mais um espetáculo da natureza: a luta pela sobrevivência. Surgia, um após outro, das brechas entre a parede e o telhado da igreja. Era Jaime, que da calçada de sua bodega aguardava tudo atentamente. O sinal de que, em instantes, começaria o espetáculo do dia: o pega-pega nos céus da Palma entre o gavião, predador, e o morcego, sua presa. Eu, menino com nove anos de curiosidade, tornei-me com Jaime, a plateia diminuta daquele drama de vida e morte. Alguns passantes paravam e desinteressados perguntavam: “O quê vocês estão olhando?” Jaime, respondia: “nada não, só estamos apreciando o céu.” O descurioso, sem nada falar, baixava a cabeça e continuava seu destino, rumo à rua de cima ou à rua de baixo, muita vez descambando para o “rabo da gata”. Outros, nem sequer atinavam para o que se sucedia no céu. E assim, éramos apenas eu, o Jaime, o gavião e os morcegos, assistentes e protagonistas daquele drama da tarde.

“Veja lá, veja lá!” Alertava Jaime. O gavião em voo rasante mergulhava atrás do morcego que, em fuga desesperada, se esquivara de seu predador e, em voo cego guiado por seu bio-sonar, numa guinada à direita, rumava para a Ponte Velha, abrigando-se no sombroso cajueiro do Chico Barra, vivente de tempos remotos daquele sítio. 

As saídas dos morcegos do esconderijo se tornavam mais frequentes à medida que escurecia, enquanto, o gavião demonstrando pressa para fisgar sua presa antes que anoitecesse de vez, fazia voos rasantes em volta da igreja esperando o momento certo para atacar. O pega-pega se repetia com lances cada vez mais ousados de predador e presa. Cada um com suas estratégias de sobrevivência: os morcegos voando em bandos se espalhavam tomando diferentes direções para confundir seu algoz. Por seu lado, o gavião respondia com a tática de perseguir aquele que parecia mais atarantado ou mostrava tibieza no voo. Cumpria-se, também, entre os morcegos, o ditame da seleção natural de Darwin: na luta pela sobrevivência os mais aptos têm mais chances. Foi assim que o gavião obteve o primeiro sucesso na caçada daquele dia. Com a presa firme nas unhas fazia meia volta e rumava ao encontro da família faminta.

Quando viu o que aconteceu, Jaime exclamou lastimoso: “Ah! desta vez ele pegou o bichinho.” Torcia pelos morcegos, enquanto eu vibrava com o sucesso do gavião. Na verdade, naqueles tempos, os morcegos não desfrutavam de boa reputação comigo. Havia toda aquela lenda que os associava a vampiros (chupa-sangue) transmissores da raiva; coisa que em nada agradava a um menino de nove anos cheio de medos, que muita vez viu no pescoço dos animais (gado, criação, jumento, etc.) as marcas sanguinolentas deixadas pelos morcegos. Sem contar que os achava feiosos e asquerosos. Hoje, não mais vejo os morcegos desta forma, afinal nem todo morcego é vampiro; apenas três das quase mil espécies existentes são hematófagas. Eu e Jaime nunca nos perguntamos o porquê da preferência por um ou por outro. Coisa de senhor que via menino como gente grande.

Não demorou muito e o gavião estava de volta ao palco do embate. Mal deu tempo, um morcego surgir da toca e foi apanhado sem tempo para esquivas. O carijó voou alto, fazendo a curva sobre a praça da matriz com a vítima presa às garras; veloz, planou em linha reta rumo a seu abrigo. Anoitecia! Sobre a praça, no céu, fiapos esparsos de nuvens púrpuras prenunciavam o badalar do sino anunciando o fim do dia. Missão cumprida, filhotes saciados, agora era esperar o dia seguinte, quando o gavião voltava e o espetáculo se repetiria na monotonia do dia a dia da pacata e entardecida Palma. Já se viam as filhas de Maria, com andar contrito se achegando à Igreja para os ritos da novena de Nossa Senhora de Fátima, já que era maio, o mês de Maria. Nada mais a acontecer, Jaime retornava para seu balcão e eu para casa. 

Hoje me pergunto: o gavião peralta ainda voa nos céus da minha terra, ou só no céu da minha memória? Os morcegos ainda se escondem nos sótãos da velha igreja? Acredito que sim pois, são diabinhos católicos como eram as andorinhas de Rubem Braga. Eu me perdi na lapa do mundo; desaprendi por vinte anos o caminho de volta à minha terra e, agora, antes que as lembranças se apaguem da minha memória, escrevo em mal traçadas linhas as coisas que se passavam despercebidas dos outros, mas que tanto significaram pro menino, que embora homem feito, teima não crescer. O Jaime, seus fregueses, os frequentadores de seu banco e suas três reclusas mulheres (esposa e cunhadas) se foram, fazer companhia a Noel. 

Hoje, a Palma é apenas uma miragem na memória dos saudosistas. A serra da Meruoca continua azul, depois de lavada pela chuva. O sino repica, não mais pros anjinhos que morriam por falta de angu, mas para lembrar que a Igreja ainda é o maior prédio da cidade e a casa da Pietá. Coreaú resiste modernosa, com seus carros e suas motos velozes e ruidosos no chão de suas ruas e ninguém mais se dá conta das nuvens tristonhas de fim de tarde que ainda vagueiam no céu da praça.

Mardone França
Coreaú - CE

A SAÚDE

Diz a organização mundial de saúde que: “saúde não é ausência de doença; más sim um bem-estar físico, social e mental.

Muitas vezes não temos doença nem uma; porém estamos cheio de problemas, de ordem financeira ou emocional. E aí nesse momento não temos doença, más também não temos saúde.
A saúde é o maior bem que o ser humano pode ter.

Quando nascemos somos puros e saudáveis. Puros por que não temos pecados nem culpas; essas coisas nos são imposta pela sociedade ou pelas religiões. Nos fazendo sentirmos culpados pelas coisas mais inocente que fazemos.

Quanto a saúde, nascemos com toda saúde, porém sem defesa. Recebemos os primeiros anticorpos, (defesa) ao dar a primeira mamada, é o colostro cheio de anticorpos adquiridos pela nossa mãe durante toda sua vida.

O nosso corpo é a máquina mais perfeita que existe, tudo que existe nessa máquina tem uma função e está a serviço de nossa vida, de nossa saúde. Os anticorpos são milhões de soldadinhos que ficam em seus postos de sentinelas 24 horas, velando pela nossa saúde, se algum corpo estranho entra nosso organismo eles atacam na hora, e a batalha é feia até expulsar o invasor. Aquele mundo é deles e não admitem nem corpo estranho no seu reinado. Quando nos machucamos ou nos estrepamos em menos de 12 horas o lugar está vermelho e muito quente. É esse exercito do bem trabalhando a nosso favor, o calor é para queimar, matar com o calor os germes vírus e bactérias que se aproveitaram do ferimento para entrar em nosso organismo.

Forma-se logo uma inflamação que eles vão tentar acabar ali mesmo; se eles não conseguirem deter os invasores eles entram em nossa corrente sanguínea e migram para nossos órgãos vitais, e aí estamos em perigo de verdade.

Até os vinte e trinta, qualquer inflamação mais forte que nossas defesa naturais não conseguiram vencê-las, o portador estava condenado a morte.

Isso por que como eu disse era uma guerra, e em todas as guerras, existe vencedores e vencidos e naquela nosso bravo exercito perdeu.

Se alguém contraísse um tuberculose estava condenado a morte. Foi com essa doença que perdemos muito jovens nossos poetas: Castro Alves, Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, José de Alencar, Tomaz Antonia Gonzaga, Taunay e muitos outros, entre eles Noel Rosa o poeta da Vila e muitos outros compositores e boêmios da época; a maioria dessas pessoas citadas não completaram trinta anos.

Foi no decorrer da segunda guerra mundial que o cientistas: Alexander Fleming descobriu o primeiro e o mais poderoso dos antibióticos: - a penicilina - depois dos antibióticos trata-se de uma tuberculose com um resfriado comum.

Os antibióticos são faca de dois gumes; anti quer dizer contra, bio é vida, como os vírus, germes e bacterias são migro organismos vivos os antibióticos matam todos; acontece que nossos anticorpos também são micro organismos vivos e morrem também. Todas as vezes que tomamos um antibiótico ficamos com menos defesa. 

Amadeu Lucinda
Guaraciaba do Norte - CE

EM MINHAS ANDANÇAS

Luana Brito
Grança - CE

ENTRE NÓS

Menina dos lábios vermelhos
Menina das minhas manhãs
O tempo passou e entardeceu
Nossos encontros
O tempo passou e nos distanciou
Esticando uma tarde entre nós
Menina dos lábios vermelhos
Quando virás amanhecer o tempo
Que te afastou de mim?
O dia termina e me convence
Que tudo será impossível entre nós.

Inocêncio de Melo Filho
Sobral - CE

ROÇADO ENCANTADO

No caminho do roçado
Encontrei meu bem-querer
Trago fruto apanhado
Trago água de beber

Tenho roça de brocado
Já no ponto de colher
Tenho um bom acolchoado
Te convido pra descer

Meu coração palpitado
Não me deixa responder
Nunca tive namorado
Minha mãe pode saber

Dou-te fruto madurado
Dou-te água pra beber
Dou-te galho sombreado
Te imploro pra descer

Já é volta do roçado
Meu cavalo quer beber
No rio do encantado...
Tudo pode acontecer!

Meu cacho de bom-bocado
Tô guardado pra você
És dona do meu roçado
És dona do meu prazer!!!

Orestes Albuquerque
Cruz-CE

ODE AO CRUZEIRO

Cruzeiro Velho, testemunho amigo,
Falei contigo quantas vezes dela!
Mas te guardaste deste meu segredo
Talvez com medo de comprometê-la.

Agora chega de calar-te, e fala
Que foi de amá-la que estraguei a vida.
Cruzeiro velho, quantas noites vinha
Contar-te a minha solidão sofrida.

Mornos domingos de fagueiros papos,
De cujos trapos vou-me consumindo!
Cruzeiro velho, é melhor calar-te:
Calar faz parte desse tempo lindo.

Guarda os tesouros de tudo que viste,
De alegre e triste que esta vida é assim.
Não contes nada, meu cruzeiro velho,
Borra o espelho do que vês em mim.

Francisco de Assis
Ipu-CE